quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

As fortes convicções

Alguém me disse ontem que eu chegava à provecta idade que tenho, porque sou uma mulher de fortes convicções. Ri-me, porque primeiro duvido que a minha longevidade tenha a ver com algo mais que os desígnios da Providência e a equipe de médicos amigos que me têm gostosamente prolongado a existência. Depois, porque não sei se sou o que se chama de uma mulher de convicções. As que tenho são muito reduzidas e não hesito em revê-las sempre que a vida me mostra a  fraca fiabilidade das mesmas. Ao longo da minha existência fui fazendo escolhas e estas impõem, sempre, abandonar alguma coisa. Hoje as tais convicções básicas reforçaram-se, é certo, mas as outras têm evoluído comigo, felizmente!
Tenho menos certezas do que há umas décadas atrás e gosto cada vez mais de quem não pensa como eu, me dá luta e me faz encarar-me a mim própria. Isto, sim, talvez seja um bom caminho para ir fazendo anos!

HSC

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A poesia de Boaventura Sousa Santos

Na morte de Fidel
É urgente um verso vermelho
que suspenda a animação deste desastre
pensado para durar depois do inverno
É urgente um verso vermelho
com todas as cores do arco iris
e o vento natural do universo
É urgente um verso vermelho
que ponha de novo em movimento os comboios da imaginação
azeite puro em manivelas de razão quente
o peso da história de novo levíssimo
a rodar sobre perguntas livres e ruínas vivas
a paisagem mudar primeiro lentamente
enquanto vão entrando vozes ainda submersas
e corpos mal refeitos da desfiguração da guerra e do comércio
das crateras e promoções
É urgente um verso vermelho
que desate os nós da memória e do medo
e resgate os rios da rebeldia
a palavra cristalina inabalável
inconfundível com as mordaças sonoras
à venda nos supermercados da ordem
É urgente um verso vermelho
para anunciar barco polifónico da dignidade
pronto a navegar
os rios libertos das barragens calcinadas
"dos sistemas de irrigação industrial da alma
É urgente um verso vermelho
uma luz manual portátil que vá connosco
sem esperar a que virá no fundo do túnel se vier
porque a cegueira da viagem é sempre mais perigosa
que a da chegada
talvez só entrega
talvez só paragem
É urgente um verso vermelho
que trace um território inacessível
aos vendedores de mobílias espirituais
e turismo de acomodação
É urgente um verso vermelho
vinho de bom ano para acompanhar
sonhos sãos e saborosos
preparados em brasas de raiva e a brisa da alegria
É urgente um verso vermelho
sem solenidades nem códigos especiais
para devolver as cores ao mundo
e as deixar combinar com a criatividade própria dos vendavais

                                Boaventura Sousa Santos

Surpreendente mundo este...

A política na Europa tornou-se imprevisível. Espanha, Austria, Inglaterra, Itália e em breve a  França deram cabo de todas as sondagens feitas para eventos politico eleitorais. O que mostra uma de duas: ou as agências não percebem nada do que fazem, ou a realidade ultrapassa, em muito, as bases em que aquelas assentam. De facto, o desacerto tem sido excessivo.
Parando um pouco para olhar o mundo, vemos que a América não vai melhor e o Oriente é um potencial foco de infecção. Isto para não falar já das complicações de Moçambique, do anuncio  da retirada de José Eduardo dos Santos em Angola, do Brasil ou de Cuba.
Levámos oito dias a acompanhar a subida aos ceus de Fidel de Castro, com votos de louvor na Assembleia da Republica, cujos deputados, dada a sua tenra idade, não devem perceber bem que Fidel teria todo o direito a estas homenagens se tem morrido em 1959. Mas como faleceu em 2016, nem sei como as classificar... É este o surpreendente mundo novo em que vivemos!

HSC

domingo, 4 de dezembro de 2016

LX 80, um livro a não perder


Pode-se falar da alma de um país de diversas formas. Uma – e, a meu ver, das mais originais – é percorrer ruas, bairros, músicas, modas, ícones – e trazer para os livros os factos que a História, como disciplina, não contempla. Todavia, são eles que contam a outra face, a da “estória viva” de uma sociedade, que ainda tem pessoas capazes de recordar as memórias dessas três décadas.
É o que faz Joana Stichini Vilela, uma jornalista nascida nos anos oitenta. Curiosamente foi nessa época que eu renasci, pelo que a data marca para ambas um começo de vida. Ela porque via a luz do dia. Eu porque, finalmente, iniciava a minha verdadeira vida. Só esta circunstância bastaria para que aqui falasse do seu ultimo livro -  "LX80 - Lisboa entra numa nova era" -, que completa a trilogia aberta com os anos 60 em que se recorda  a vida na capital naquela década, muito marcada pelo consumismo e pelas noites  do Bairro Alto.
Jornalista de formação a autora criou uma colecção de livros que recordam a vida na capital portuguesa nas três últimas décadas: depois de Lx60 e de Lx70, surgiu agora o terceiro, a que acima me refiro.
Em 1980 Joana era uma criança cujas memórias mais marcantes recordam a canção do Vitinho que, na altura anunciava a hora de deitar. Ao contrário, eu recordo a Lambada, ritmo que veio do Brasil na mesma ocasião. E ambas, por motivos diferentes, recordamos as idas ao Centro Comercial das Amoreiras, inaugurado em 1985 
A Joana Vilela, pareceu óbvio, depois do livro dos anos 60, continuar com a década seguinte e "naturalmente" chegar aos anos 80. Fazia, de facto, todo o sentido juntar estas três décadas, que apesar de bastante diferentes, em conjunto, constituem um bloco. 
Mas para atingir os seus objectivos também era importante retratar os anos 80 e para tal juntou-se a Pedro Fernandes, o designer gráfico que a acompanha nesta aventura e que cresceu na mesma época.
Se os anos 60 foram a década da ideologia (e de sonhar com um país diferente) e os anos 70 foram marcados pela revolução de Abril (a política estava em todo o lado), esta década de 80 é aquela em que as pessoas querem uma normalidade, procuram recuperar o atraso perdido. 
À medida que se avança na década percebe-se como, não havendo nada, existia essa urgência de trazer tudo para cá, como uma rampa ascendente. É um tempo marcado pela abertura ao mundo - a entrada na CEE em 1985 foi um momento decisivo - e pelo dinheiro, a bolsa, o consumo, os excessos. 
Sentia-se uma grande urgência. Havia uma crescente efervescência, uma profunda sensação de que tudo era possível. É uma atitude que se estende aos jornais, ao cinema, à rádio, às bebidas e aos artistas. Surge alguém como António Variações, que hoje se tornou um ícone da verdadeira música popular de qualidade. 
Foi também a época da D. Branca, a banqueira do povo, que seria condenada a 10 anos de prisão. E de outras coisas menos boas. É que nesta Lisboa dos anos 80 havia prédios em ruínas, o Chiado ficou reduzido a cinzas, a heroína circulava pela cidade e  a Sida começou a fazer parte dos noticiários. Houve também o rapto de um bébé acabado de nascer no hospital, e viveu-se um período de medo de que tal voltasse a acontecer.
Cada história é contada de uma maneira diferente e com uma ética diversa. No final do livro, que também é o final da década, surge "a campanha mais louca do mundo", a de Marcelo Rebelo de Sousa à Câmara de Lisboa. E com ela, o candidato a banhar-se no Tejo e a conduzir um táxi. Que acabaria por perder as eleições. Mas ninguém suporia, então, o que ainda lhe (nos) iria acontecer em 2016.
Trata-se de um excelente livro que fala de Portugal, falando de Lisboa. E que nos retrata com isenção, não escondendo o que estava mal mas, sobretudo, não esquecendo aquilo que então tanto nos animava. Já é muito raro haver quem o faça!

HSC

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A Caixa de Pandora

Depois de sete meses parados, a CGD perde parte da sua administração, mantendo-se Rui Vilar que, pelo que se depreende, irá assumir a governação até que se encontre um novo grupo de gestores que aceite cumprir o programa daqueles que agora saem e trabalhar porventura com menores salários. Uma confusão que me parece estar longe de resolução definitiva.
Até porque não serão muitos os que se disponham a aceitar dirigir a instituição nestas condições. A solução vai, assim, pender para a escolha de um gestor político, que era o contrário do que Antonio Costa preconizava. Enfim, uma baralhada que durou tempo demais, lesou a instituição e acabou por manchar todos aqueles que intervieram no processo, sobre o qual nunca saberemos a verdade. 
E de quem é a culpa disto tudo ? Evidentemente, do PSD e do CDS, como se deduz das palavras que temos ouvido. E uma parcela de culpa pode, de facto, ser-lhes atribuída, porque não souberam ou não puderam, ou não quiseram, dar à Caixa, no seu tempo, a solução que se imporia. E também porque, agora na oposição, não escolheram a melhor via de combater o impasse criado. Mas essa é a velha "estoria" do relacionamento entre os nossos dois maiores partidos ao longo dos anos, quer sejam oposição, quer sejam governo.
Todavia, pretender assacar todas as culpas do que sucedeu nestes lamentáveis sete meses, ao anterior governo, também me parece um excesso, que só descredibiliza quem o afirma. 
Acresce que o silêncio do Ministro das Finanças nesta ultima semana é, no mínimo, confrangedor. O mesmo se pode dizer do chefe de governo, depois de tudo o que veio a lume. Oxalá não se tenha aberto uma caixa de Pandora!

HSC

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Neste tempo de Advento

Daqui a uns dias, entramos num novo ano. Por estranho que pareça numa época de guerra em muitos pontos do globo, de desastres naturais, de refugiados  que tentam escapar a uma morte certa, as palavras que mais se ouviram, os gestos que mais se fizeram, tiveram pouco a ver com estes factos.
O que dominou as noticias não foram o amor pelo próximo, ou a introspecção individual ou colectiva. O domínio pertenceu à política, à finança e à economia. A preocupação com o Brexit, com as eleições em Espanha, com o risco da Itália ou com a necessidade da Grécia e Portugal renegociarem a dívida é que foram as angústias  existenciais da velha Europa. 
E para não ficar atrás a América escolhe Trump para presidir aos seus destinos. Em tempo de Avento tudo isto me parece revelador do mundo em que vivemos no qual tudo se mede em termos de valores. Económicos ou financeiros, claro, porque os outros, esses, estão no domínio da política...
Triste sociedade, aquela em que vivemos!

HSC

sábado, 19 de novembro de 2016

António Ferro


Rita Ferro lançou hoje na Sala dos Espelhos do Palácio Foz o seu livro sobre António Ferro, seu avô. Como já vem sendo tradição havia dois apresentadores Sofia Vala Rocha e António Vitorino e uma surpresa a cargo da actriz brasileira Valéria que leu uma pequena peça do biografado.
Ainda não comecei a ler o livro, que trata uma personagem emblemática do Estado Novo e que a neta vê, com perplexidade, passar de alguém bastante admirado no tempo de Salazar, a um "facínora" nos tempos do 25 de Abril, sem bem compreender porquê. O livro constitui, penso, a sua necessidade de dar a conhecer o "verdadeiro" António Ferro e de finalmente perceber quem era realmente esse avô que ela se habituou a tanto amar.
Assim, a minha opinião sobre a obra irei da-la quando terminar a sua leitura. Decerto vou gostar, porque a aprecio não só como amiga, mas também como escritora. E, creio, se ela se dedicasse só à escrita, nao tenho dúvidas que todos partilhariam da minha opinião.
Depois das palavras da editora, falou António Vitorino que me deixou siderada com a brilhante análise que fez do homem e do país. Seria difícil alguém escalpelizar melhor a personagem de António Ferro, a sua vida política, a sua proximidade de Salazar e a forma como decorreu a sua existência. Para, no fim, acabar por lançar a pergunta crucial que é a de saber o que teria levado o então Presidente do Conselho de Ministros a proteger um homem cuja visão do mundo, em certos aspectos, pouco tinha a ver com a visão paroquiana do chefe do governo. Porque o contrário, ou seja, a obsessão de Ferro pelo patrono, essa, o livro parece dar resposta.
Sofia Vala depois desta primeira intervenção teve a inteligência de só analisar o livro e não o retratado, dando-nos a possibilidade de ter, digamos, dois lados da mesma moeda. E salientando que em muitas situações é a Rita Ferro que se põe no papel do avô.
Uma sala cheia de amigos numa tarde de sábado só a Rita conseguiria. Como só ela conseguiu que Oliveira Martins saísse da plateia para tomar também - e muito bem - a palavra. Enfim, é preciso conhecer bem a autora para perceber este fenómeno de singularidade que caracterizam as suas apresentações!

HSC